Um parecer clássico afirma
que água boa para beber é pura, insípida,
inodora e incolor. Foi assim que no primário, fui instruído sobre o que
seria água potável. “É a água da torneira”, arrematava a professora.
O tempo passou, e sinal
explícito de que a população perdeu a confiança na água da rede pública, a água
mineral tornou-se líquido prioritário para matar a sede. A primeira vez em que
eu vi um garrafão de água mineral (de vidro, acompanhado do devido suporte),
foi numa empresa onde trabalhava quando jovem. Curioso, investiguei o garrafão
e notei um registro no fundo do recipiente: Hecho
en Mexico. Isto é: produzido no México.
Na ocasião, não
atinava razão plausível para um país fabricar garrafões em série. Anos mais
tarde, tomei conhecimento de que passo a passo, os mexicanos puseram a perder suas
águas de superfície. Logo, a solução para saciar a sede não teria como
dispensar a água mineral, extraída do subsolo.
De lá para cá, a moda
pegou e também se alastrou. Hoje atendendo vasta clientela, as garrafinhas
plásticas de água engarrafada (mineral, é claro) e garrafões (agora de
plástico), tornaram-se onipresentes.
Neste panorama, caberia
avaliar se estas transformações foram válidas. Isto porque o argumento central
das corporações de água mineral - a pureza insofismável do líquido -, pelo
mínimo justificariam três notações básicas.
Primeiro: atente-se
que a água na natureza não tem como ser imaculada. Mesmo a água da chuva,
contém substâncias incorporadas durante a precipitação, devido ao contato com o
ar, poluído pelos humanos ou não.
Portanto, a água “pura,
insípida, inodora e incolor”, possui forte apenso laboratorial, não
correspondendo ao líquido realmente disponível no meio ambiente, e que em
contradição com este axioma, nem por isso deixa de ser potável.
Prova disso, o sucesso
das águas minerais, procede por serem líquidos com cores, odores e sabores.
Por definição, são águas nobres
cujo diferencial é justamente sua impura singularidade. Incensadas e adereçadas de glamour, permite-se compará-las como as
melhores safras dos vinhos de Baco.
Segundo: o apelo à
pureza das marcas comerciais da indústria de água mineral, cuja existência
repousa na comercialização de um produto - a água dita “natural” -, apenas se
tornou viável com a poluição desmesurada da massa líquida dos cursos d’água, rechaçadas
por sua impureza contaminante e substituídas por líquidos com máculas
biologicamente admissíveis, as águas minerais.
No mais, o
agigantamento do mercado da água não resultou apenas das demandas objetivas
pelo líquido. Em paralelo a estas, investimentos de vulto, com base em acepções
imaginárias interpostas à substância, tiveram relevante papel, criando desejos
inéditos e formatando um novo universo de consumo: a água mineral “pura”, calçando
a demanda que atualmente desfruta.
O terceiro ponto, mais
importante e essencial, reporta ao alerta quanto à alegada genuinidade do
produto. Tomemos como exemplo a famosa água mineral Perrier, da França, que circulando
em 140 países, totalizava em 2013 quase um bilhão de garrafas vendidas.
Note-se que a despeito
da imagem de produto natural, esta água é industrialmente manipulada, cuja
carbonatação decorre de adição no engarrafamento, assim como sabores
incorporados às variedades da marca, também oferecida, desde 2011, em garrafas
PET descartáveis. Deste modo, o que é adquirido pelos consumidores é um
conceito. Mas não uma água mineral “pura”.
Existem também outros
fatores que estão cada vez mais colocando em risco a qualificação das águas
minerais. Devido à expansão urbana, as fontes estão cada vez mais próximas das
metrópoles, origem de impactos consideráveis para as águas subterrâneas.
Daí que, no parecer de
muitos especialistas, as águas minerais estão, em termos de confiabilidade, se
tornando análogas à água da rede pública, pelo que, impõe-se um desafio óbvio:
tornar novamente naturais o conjunto de todas as águas, inclusive, compreensivelmente,
a que sai das torneiras.
Maurício Waldman é jornalista (MTb 79.183-SP), antropólogo, professor universitário e pesquisador acadêmico. Três vezes Pós-Doutor (UNICAMP, USP e PNPD-CAPES), Waldman é autor de 18 livros, 22 ebooks e 700 artigos, papers e relatórios de consultoria. E-mail: mw@mw.pro.br
Maurício Waldman é jornalista (MTb 79.183-SP), antropólogo, professor universitário e pesquisador acadêmico. Três vezes Pós-Doutor (UNICAMP, USP e PNPD-CAPES), Waldman é autor de 18 livros, 22 ebooks e 700 artigos, papers e relatórios de consultoria. E-mail: mw@mw.pro.br
SAIBA MAIS SOBRE A CRISE HÍDRICA E O IMPÉRIO DA SEDE
Água: Escassez e Conflitos no Império da Sede, de Maurício Waldman
Lançamento Editora Kotev (2019 KOTEV©)
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ISBN 1230003255148, com 506.193 Caracteres e 65 Figuras
Acesso Livre na Internet em Formato PDF:
Programa Record News
Entrevista de Maurício Waldman com Heródoto Barbeiro, (12:45 minutos), 20-06-2019:
Entrevista de Maurício Waldman com Heródoto Barbeiro, (12:45 minutos), 20-06-2019:
Entrevista Especial para o Instituto Humanitas Unisinos, 6-08-2019
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