August 22, 2019

ÁGUAS MINERAIS IMPURAS - SÉRIE IMPÉRIO DA SEDE Nº. 1



Um parecer clássico afirma que água boa para beber é pura, insípida, inodora e incolor. Foi assim que no primário, fui instruído sobre o que seria água potável. “É a água da torneira”, arrematava a professora.

O tempo passou, e sinal explícito de que a população perdeu a confiança na água da rede pública, a água mineral tornou-se líquido prioritário para matar a sede. A primeira vez em que eu vi um garrafão de água mineral (de vidro, acompanhado do devido suporte), foi numa empresa onde trabalhava quando jovem. Curioso, investiguei o garrafão e notei um registro no fundo do recipiente: Hecho en Mexico. Isto é: produzido no México.

Na ocasião, não atinava razão plausível para um país fabricar garrafões em série. Anos mais tarde, tomei conhecimento de que passo a passo, os mexicanos puseram a perder suas águas de superfície. Logo, a solução para saciar a sede não teria como dispensar a água mineral, extraída do subsolo.

De lá para cá, a moda pegou e também se alastrou. Hoje atendendo vasta clientela, as garrafinhas plásticas de água engarrafada (mineral, é claro) e garrafões (agora de plástico), tornaram-se onipresentes.

Neste panorama, caberia avaliar se estas transformações foram válidas. Isto porque o argumento central das corporações de água mineral - a pureza insofismável do líquido -, pelo mínimo justificariam três notações básicas.

Primeiro: atente-se que a água na natureza não tem como ser imaculada. Mesmo a água da chuva, contém substâncias incorporadas durante a precipitação, devido ao contato com o ar, poluído pelos humanos ou não.

Portanto, a água “pura, insípida, inodora e incolor”, possui forte apenso laboratorial, não correspondendo ao líquido realmente disponível no meio ambiente, e que em contradição com este axioma, nem por isso deixa de ser potável.

Prova disso, o sucesso das águas minerais, procede por serem líquidos com cores, odores e sabores. Por definição, são águas nobres cujo diferencial é justamente sua impura singularidade. Incensadas e adereçadas de glamour, permite-se compará-las como as melhores safras dos vinhos de Baco.

Segundo: o apelo à pureza das marcas comerciais da indústria de água mineral, cuja existência repousa na comercialização de um produto - a água dita “natural” -, apenas se tornou viável com a poluição desmesurada da massa líquida dos cursos d’água, rechaçadas por sua impureza contaminante e substituídas por líquidos com máculas biologicamente admissíveis, as águas minerais.

No mais, o agigantamento do mercado da água não resultou apenas das demandas objetivas pelo líquido. Em paralelo a estas, investimentos de vulto, com base em acepções imaginárias interpostas à substância, tiveram relevante papel, criando desejos inéditos e formatando um novo universo de consumo: a água mineral “pura”, calçando a demanda que atualmente desfruta.

O terceiro ponto, mais importante e essencial, reporta ao alerta quanto à alegada genuinidade do produto. Tomemos como exemplo a famosa água mineral Perrier, da França, que circulando em 140 países, totalizava em 2013 quase um bilhão de garrafas vendidas.

Note-se que a despeito da imagem de produto natural, esta água é industrialmente manipulada, cuja carbonatação decorre de adição no engarrafamento, assim como sabores incorporados às variedades da marca, também oferecida, desde 2011, em garrafas PET descartáveis. Deste modo, o que é adquirido pelos consumidores é um conceito. Mas não uma água mineral “pura”.

Existem também outros fatores que estão cada vez mais colocando em risco a qualificação das águas minerais. Devido à expansão urbana, as fontes estão cada vez mais próximas das metrópoles, origem de impactos consideráveis para as águas subterrâneas.

Daí que, no parecer de muitos especialistas, as águas minerais estão, em termos de confiabilidade, se tornando análogas à água da rede pública, pelo que, impõe-se um desafio óbvio: tornar novamente naturais o conjunto de todas as águas, inclusive, compreensivelmente, a que sai das torneiras.

Maurício Waldman é jornalista (MTb 79.183-SP), antropólogo, professor universitário e pesquisador acadêmico. Três vezes Pós-Doutor (UNICAMP, USP e PNPD-CAPES), Waldman é autor de 18 livros, 22 ebooks e 700 artigos, papers e relatórios de consultoria. E-mail: mw@mw.pro.br



SAIBA MAIS SOBRE A CRISE HÍDRICA E O IMPÉRIO DA SEDE

Água: Escassez e Conflitos no Império da Sede, de Maurício Waldman
Lançamento Editora Kotev (2019 KOTEV©)
ISBN 1230003255148, com 506.193 Caracteres e 65 Figuras
Acesso Livre na Internet em Formato PDF: 


Programa Record News
Entrevista de Maurício Waldman com Heródoto Barbeiro, (12:45 minutos), 20-06-2019:

Entrevista Especial para o Instituto Humanitas Unisinos, 6-08-2019


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