August 28, 2019

SALLES: OBTUSO OU IRRESPONSÁVEL?

SALLES:
OBTUSO OU IRRESPONSÁVEL?



Ricardo Salles, Ministro do Meio Ambiente, protagonizou no curto lapso de alguns meses, pouco memorável coleção de embates na área que lhe compete na esfera estatal.

A trajetória de Salles, plugada à concertação liderada pelo Presidente Jair Bolsonaro, tornou-se em si mesma, aos olhos de parcela expressiva da opinião pública, prova cabal de sua incapacidade em exercer o complexo mandato pelo meio ambiente.

Muitos definem Salles como irresponsável. Contudo, entendo que tal adjetivação, mesmo que tecnicamente correta, seria merecedora de reparos, em vista de avaliar que a atuação do ministro não reporta a casualidades, mas sim, a descompassos e lacunas mais profundas.

Neste cenário, cabe frisar que o Estado brasileiro, na voz do geógrafo Milton Santos, teria por meta mistificar, propagar, ou gerar uma ideologia de modernização, de paz social e de falsas esperanças, fabulação que nem de longe é capaz, ou se mostra disposto a transferir para o mundo real.

Assim, crivado por disfuncionalidades estruturais e institucionais, e por extensão, calçado por práticas omissivas atinentes à lógica de protelar e erodir soluções, o Estado brasileiro corporificaria um claro controle desagregador.

Em sendo assim, seria difícil, tal como ficou explícito nas últimas décadas, que um ministro do meio ambiente faça mais que um mero “pronto-socorro” ambiental.

Mas, o problema parece ser exatamente este: nem pronto-socorro Salles se presta a fazer. Pior: longe de exercer o chamado controle desagregador, o ministro parece determinado em desagregar o controle do Estado, qualquer que seja.

Em larga medida, a narrativa do ministro fornece pistas relativas ao seu prontuário procedimental. A saber, há um claro nexo ideológico no seu discurso, quando, por exemplo, execra a memória de Chico Mendes, por ele restrito ao status de mero “esquerdista” e também, quando busca contrapor-se ao “globalismo”.

Claro está que Chico Mendes era um socialista. Eu mesmo, que nos anos 1980 servi a este homem com o melhor das minhas forças, confirmaria tal notação. Sim, Chico Mendes era esquerdista. Mas e daí?

Recorrendo a uma prédica bíblica, que sabiamente admoesta que os homens serão julgados por seus atos mais do que por sua fé, não se permite, por esta mesma razão, desqualificar a obra, por exemplo, de João Cândido e Afonso Taunay, tão só por terem sido direitistas. Nem a de Chico Mendes por ter sido esquerdista.

No segundo caso, Salles erra novamente pela ideologização das narrativas que endossa. Pautar que a defesa da soberania nacional passa pela desqualificação das matrizes ambientais que hoje constituem um patrimônio do pensamento ético e científico da Humanidade, é uma postura pelo mínimo indigesta.

Certo é que a ordem global tem dado mostras de cansaço, inoperância e injustiças. No prisma ambiental não faltam críticas nem mesmo por parte de autores para lá de engajados na defesa ambiental, quanto à forma com que algumas “preocupações ecológicas” se tornam “mais globais” do que outras.

Em paralelo, note-se que a defesa do ambiente não é e nem nunca foi, um apanágio programático da esquerda. Tanto assim, que o Relatório Limites do Crescimento, desde os anos 1960 uma referência sobre o debate ambiental, foi elaborado por atores do mundo corporativo e não por raivosos militantes das ONGs, que por sinal, sequer existiam nesta época.

Salles parece desconhecer que a defesa do ambiente reúne grupos muito variados, social, politica e ideologicamente. Assim, paralelamente à posição da Amazônia enquanto “patrimônio global”, atente-se que para muitos segmentos, a defesa da majestade deste acervo é uma reivindicação da nacionalidade, e não “do Planeta”.

Neste senso, o viés simplista e acintosamente ideacionado que ensombra o ministro, não lhe permite discernimento ou isenção. Daí que é a incapacidade de Salles, fingida ou não, em decodificar o mundo real que o tornam um irresponsável, e por tabela, indigno dos desafios inerentes à gestão do meio ambiente.


MAURÍCIO WALDMAN é jornalista (MTb 79.183-SP), três vezes Pós-Doutor (UNICAMP, USP e PNPD-CAPES), e autor de 18 livros, 22 ebooks e 700 artigos, papers e relatórios de consultoria. Waldman foi colaborador de Chico Mendes, Coordenador do Comitê de Apoio aos Povos da Floresta de São Paulo e elencado no ano de 2003em enquete do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP), como um dos trinta ambientalistas históricos do Estado de São Paulo. E-mail: mw@mw.pro.br


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