SALLES:
OBTUSO OU IRRESPONSÁVEL?
OBTUSO OU IRRESPONSÁVEL?
Ricardo Salles,
Ministro do Meio Ambiente, protagonizou no curto lapso de alguns meses, pouco memorável coleção de embates na
área que lhe compete na esfera estatal.
A trajetória de
Salles, plugada à concertação liderada pelo Presidente Jair Bolsonaro, tornou-se
em si mesma, aos olhos de parcela expressiva da opinião pública, prova cabal de
sua incapacidade em exercer o complexo mandato pelo meio ambiente.
Muitos definem Salles
como irresponsável. Contudo, entendo que tal adjetivação, mesmo que
tecnicamente correta, seria merecedora de reparos, em vista de avaliar que a atuação
do ministro não reporta a casualidades, mas sim, a descompassos e lacunas mais
profundas.
Neste cenário, cabe
frisar que o Estado brasileiro, na voz do geógrafo Milton Santos, teria por
meta mistificar, propagar, ou gerar uma ideologia de modernização, de paz
social e de falsas esperanças, fabulação que nem de longe é capaz, ou se mostra
disposto a transferir para o mundo real.
Assim, crivado por disfuncionalidades
estruturais e institucionais, e por extensão, calçado por práticas omissivas atinentes
à lógica de protelar e erodir soluções, o Estado brasileiro corporificaria um
claro controle desagregador.
Em sendo assim, seria
difícil, tal como ficou explícito nas últimas décadas, que um ministro do meio
ambiente faça mais que um mero “pronto-socorro” ambiental.
Mas, o problema parece
ser exatamente este: nem pronto-socorro Salles se presta a fazer. Pior: longe
de exercer o chamado controle desagregador, o ministro parece determinado em
desagregar o controle do Estado, qualquer que seja.
Em larga medida, a
narrativa do ministro fornece pistas relativas ao seu prontuário procedimental.
A saber, há um claro nexo ideológico no seu discurso, quando, por exemplo,
execra a memória de Chico Mendes, por ele restrito ao status de mero “esquerdista” e também, quando busca contrapor-se ao
“globalismo”.
Claro está que Chico
Mendes era um socialista. Eu mesmo, que nos anos 1980 servi a este homem com o
melhor das minhas forças, confirmaria tal notação. Sim, Chico Mendes era
esquerdista. Mas e daí?
Recorrendo a uma prédica
bíblica, que sabiamente admoesta que os homens serão julgados por seus atos mais
do que por sua fé, não se permite, por esta mesma razão, desqualificar a obra,
por exemplo, de João Cândido e Afonso Taunay, tão só por terem sido
direitistas. Nem a de Chico Mendes por ter sido esquerdista.
No segundo caso,
Salles erra novamente pela ideologização das narrativas que endossa. Pautar que
a defesa da soberania nacional passa pela desqualificação das matrizes
ambientais que hoje constituem um patrimônio do pensamento ético e científico
da Humanidade, é uma postura pelo mínimo indigesta.
Certo é que a ordem
global tem dado mostras de cansaço, inoperância e injustiças. No prisma
ambiental não faltam críticas nem mesmo por parte de autores para lá de
engajados na defesa ambiental, quanto à forma com que algumas “preocupações
ecológicas” se tornam “mais globais” do que outras.
Em paralelo, note-se
que a defesa do ambiente não é e nem nunca foi, um apanágio programático da
esquerda. Tanto assim, que o Relatório Limites do Crescimento, desde os anos
1960 uma referência sobre o debate ambiental, foi elaborado por atores do mundo
corporativo e não por raivosos militantes das ONGs, que por sinal, sequer
existiam nesta época.
Salles parece
desconhecer que a defesa do ambiente reúne grupos muito variados, social,
politica e ideologicamente. Assim, paralelamente à posição da Amazônia enquanto
“patrimônio global”, atente-se que para muitos segmentos, a defesa da majestade
deste acervo é uma reivindicação da nacionalidade, e não “do Planeta”.
Neste senso, o viés
simplista e acintosamente ideacionado que ensombra o ministro, não lhe permite
discernimento ou isenção. Daí que é a incapacidade de Salles, fingida ou não,
em decodificar o mundo real que o tornam um irresponsável, e por tabela,
indigno dos desafios inerentes à gestão do meio ambiente.
MAURÍCIO WALDMAN é jornalista (MTb 79.183-SP), três vezes Pós-Doutor
(UNICAMP, USP e PNPD-CAPES), e autor de 18 livros, 22 ebooks e 700 artigos, papers
e relatórios de consultoria. Waldman foi colaborador de Chico Mendes, Coordenador do Comitê de Apoio aos
Povos da Floresta de São Paulo e elencado no ano de 2003, em enquete do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP), como um dos trinta
ambientalistas históricos do Estado de São Paulo. E-mail: mw@mw.pro.br
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REPERCUSSÃO
ENTREVISTA DE MAURÍCIO WALDMAN COM HERÓDOTO BARBEIRO
ENTREVISTA DE MAURÍCIO WALDMAN COM HERÓDOTO BARBEIRO
Programa Record News -
(12:45 minutos), 20-06-2019:
ENTREVISTA ESPECIAL
PARA O INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS, 6-08-2019
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