A sala estava repleta quando
o autor deste texto desenvolvia em 2008, uma das aulas do curso de capacitação
para professores da rede municipal de ensino de Poços de Caldas (MG).
Abordando o tema da
diversidade humana, explanava quão frágeis são as prédicas firmadas em “raças”
- que não dizer de grupos e raças “puras” -, uma concepção estranha, que a
despeito da ausência completa de cientificidade, prossegue na colonização do
imaginário social.
Comentando esta noção,
reportei a uma sagaz ponderação do geógrafo galês Emrys Jones, que se
distinguiu por argumentações apoiadas em bases de dados objetivas.
A avaliação inicial de
Jones sobre a raça humana, por sinal, a única que de fato existe, repete o que
é óbvio nas ciências sociais. Detalhes como cor da pele, tipo de cabelo, altura
e formato dos olhos, não são determinantes para definir um “tronco racial” e
tampouco, supostas virtudes ou imperfeições inatas.
Jones também reforçava
este argumento recordando o fato de que devido ao longo histórico de
miscigenações entre povos e etnias, a prédica das “raças puras” se convertia
num axioma totalmente desprovido de sentido.
Numa dedução interessante,
o geógrafo inovou ao recordar que retrocedendo pela árvore genealógica, os
antepassados de um indivíduo se multiplicam em progressão geométrica.
Assim sendo, se um
contemporâneo nosso puder reconstruir sua árvore genealógica até oito gerações
precedentes, isto significa que sua constituição genética e, por conseguinte seu
aspecto físico, decorre de 510
antepassados que viveram por volta do ano 1700.
De quantos
antepassados então não descenderíamos, caso a linha do tempo fosse recuada em
mais mil ou dez mil anos? Seriam dezenas de milhares de ancestrais! Nesta
escala, qualquer um de nós tem de tudo na genealogia: africanos, esquimós,
indianos, judeus, irlandeses e por aí vai.
Apurando o raciocínio,
registrei que além da diversidade étnica e cultural, pessoas diferentes em
termos de índole, poder social e personalidade, constam nos nossos prontuários
genéticos: santos e ladrões, mendigos e ricaços, honestos e malfeitores.
Ademais, afirmei que este
elenco não estaria completo caso omitíssemos as opções sexuais. Com efeito, na
nossa ancestralidade, lado a lado com ampla tipologia de multiplicidades,
poderíamos encontrar pessoas “calminhas” e as ditas puladoras “de cerca”, e
porque não, o que coloquialmente foi consagrado como sendo gays.
Foi neste momento que
um dos participantes da aula, indisposto com o comentário, interrompeu-me de um
modo um tanto deselegante: “Professor, isto é impossível! Pai e mãe são de
sexos opostos”.
“Não exatamente”,
respondi. Recordei-lhe que pode acontecer que um gay fique curioso para
“experimentar” o sexo oposto. Portanto, é perfeitamente possível que sejam pais
e mães.
Na sequencia, fui mais
claro ainda e disse: “Pois é, pode ser que num momento de curiosidade é que exatamente
um dos seus ancestrais surgiu”. E aí, em meio a gargalhadas gerais da sala, o
debate finalizou.
Certamente, o debate
sobre o homossexualismo é profundo e polêmico, e até demais para o gosto deste
autor. Prova disso, recentemente o prefeito Marcelo Crivella, do Rio de
Janeiro, cidade caótica, mergulhada em seríssimos problemas, se dispôs a abrir
brecha na agenda oficial para acompanhar o recolhimento de uma HQ com beijo gay
na Bienal do Livro.
Este fato, lamentável
por uma vez mais confirmar que no Brasil, existem “leis que pegam” e “leis que
não pegam”, acontecendo poucas semanas após o STF ter criminalizado a
homofobia, demonstra também o abismo de compreensão de uma temática, que não permitiria
tamanhas reações de inconformismo.
O homossexualismo é
registrado desde que este mundo é mundo, variando tão só na sua aceitação sociocultural
por parte de diferentes comunidades ao longo do tempo.
Aparte detalhamentos pontuais,
o que a lógica do concreto impõe é que temos vizinhos, colegas de trabalho, empresários
e políticos gays. No mais, que no passado, sabe-se lá quem ao longo do tempo,
tivemos ancestrais gays, que assim eram porque assim vieram ao mundo. Simples assim.
Embora para alguns o
dado seja perturbador, nem por isso deixa de ser verdadeiro. Goste-se ou não da
ideia, ancestral gay, todo mundo teve. E também, goste-se ou não disso, todos
seremos, cedo ou tarde, ancestrais de gays.
Maurício Waldman é jornalista (MTb 79.183-SP), antropólogo, professor universitário
e pesquisador acadêmico. Três vezes Pós-Doutor (UNICAMP, USP e PNPD-CAPES),
Waldman é autor de 18 livros, 22 ebooks e 700 artigos, papers e
relatórios de consultoria. E-mail: mw@mw.pro.br
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A TRAGÉDIA DAS ÁGUAS ATORMENTADAS - ARTIGO DA SÉRIE IMPÉRIO DA SEDE Nº. 2: http://focodefato.blogspot.com/2019/09/a-tragedia-das-aguas-atormentadas.html
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