September 6, 2019

A TRAGÉDIA DAS ÁGUAS ATORMENTADAS - SÉRIE IMPÉRIO DA SEDE Nº. 2



Nota essencial no debate da crise hídrica, o império da sede não se alastra tão só em razão da rarefação das águas doces. Junto com a escassez, expandiu-se a difusão das águas impuras, de má qualidade, ou então, “fake”, nexo que inclui a água “mineral” engarrafada, por alguns, entendida como opção para substituir o líquido por vezes estranho e intragável que sai das torneiras.

Mas, não é esta a opinião do autor deste artigo. Direto e sem rodeios, coloquemos na roda de discussão o caso da água “mineral” Pure Life (circulando na América Latina com o rótulo Pureza Vital), engarrafada pela Nestlé na pacata cidade mineira de São Lourenço, que a mais ver, gerou, desde os anos 1990, um sério contencioso entre a sociedade local e a multinacional, revelando também implicações da mercantilização das águas.

Em 1992, a Nestlé adquiriu o controle da empresa Perrier Vittel, incluindo nesse espólio a concessão da exploração das fontes do Parque das Águas de São Lourenço (desde 2018 sob controle do Grupo Edson Queiroz), fontanários que integram o polo turístico do Circuito das Águas do Sul de Minas Gerais, cuja economia, é dependente das fontes de água mineral, conhecidas desde 1826 e afamadas pelo indiscutível valor medicinal.

A Nestlé, assenhoreando-se do Parque das Águas, perfurou em 1996 um novo poço para fabricar a água da marca Pure Life, ou seja: Vida Pura. Neste processo, a água mineral - por definição um bem natural raro, nobre e singular -, passou a ser, após a extração, desmineralizada e artificialmente enriquecida de sais, acatando fórmula padrão comum a 56 plantas desta marca em todo o mundo, e neste "avatar hídrico", colocada à venda em dezenas de países onde a marca é encontrada.

A Pure Life, na realidade um produto adereçado de apelos imaginários, não passa, em bom alemão, de uma ersatz wasser, isto é, um sucedâneo da água natural. A desmineralização, além de alvo de objeções legais, é contestada por pesquisadores, repudiada pelos ambientalistas e criticada por entidades de defesa do consumidor, que detectam na prática da Nestlé, um capítulo dos processos de estandardização inerentes à fordização da economia moderna.

Mas, nada disto demoveu a Nestlé, que continuou a fabricar a Pure Life, e lado a lado a polêmicas jurídicas, com o objetivo de atender metas comerciais, a empresa intensificou o ritmo de bombeamento das fontes, arruinando os lençóis subterrâneos, o que provocou em 2002, a extinção da fonte magnesiana, seguida do recalque do solo da área da concessão.

Estes impactos suscitaram mobilização da comunidade na defesa do Parque das Águas, envolvendo ações judiciais contra a Nestlé com apoio de movimentos sociais. Porém, no que evidencia as limitações do Estado frente ao poder econômico, estas movimentações, mesmo angariando respaldo jurisprudencial na Suíça, país-sede da Nestlé, e farta visibilidade na mídia europeia (nisto diferindo do cauteloso silêncio da imprensa nacional), foram frustradas por manobras burocráticas e pela influência da poderosa corporação.

Bastou a Nestlé anunciar o fechamento da fábrica para que as autoridades estaduais e federais corressem em seu socorro. Em Minas Gerais, foi prontamente concedida uma licença corretiva permitindo a continuidade das operações da Nestlé e, em nível federal, o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), anunciou nova portaria autorizando a desmineralização “parcial” das águas minerais.

Estes agravos, à revelia da legislação, foram analisados pela Curadoria do Meio Ambiente de São Lourenço, que em Ação Civil Pública instruída em Dezembro de 2001, registrou tormentos impostos às águas, tais como: perfuração ilegal do poço, à revelia do DNPM, que constatou o embuste e não tomou nenhuma providência; degradação ambiental dos veios subterrâneos, afetando a comunidade ao por a perder o turismo e próprias águas; uso irracional de recurso raro e limitado para a produção da Pure Life, por parte de uma empresa cujo único interesse é o lucro.

Prova inconteste da tibieza do suposto poder “público” brasileiro, e no que pese a consistência da argumentação legal da ação civil pública e de denúncias posteriores, este nefando histórico de agressões à saúde das águas, inaugurado pela Nestlé nos anos 1990 na Era FHC, prosseguiu sem modificações nas duas gestões do presidente Lula, contando também com a conivência do governo mineiro, monitorado pelo PSDB.

Claro sinal de que as ameaças que rondam as águas doces não têm como polaridade confratual apenas as grandes corporações e partidos políticos, mas igualmente, o caráter omissivo do aparelho estatal brasileiro, o que remete de modo direto, à questão das formas de governança do Estado. Ou dito de outro modo, descartando-se a tarefa espinhosa de repensar o Estado brasileiro, não há como propor uma clara, justa e eficaz defesa das águas.

Maurício Waldman é jornalista (MTb 79.183-SP), antropólogo, professor universitário e pesquisador acadêmico. Três vezes Pós-Doutor (UNICAMP, USP e PNPD-CAPES), Waldman é autor de 18 livros, 22 ebooks e 700 artigos, papers e relatórios de consultoria. E-mail: mw@mw.pro.br

SAIBA MAIS SOBRE A CRISE HÍDRICA E O IMPÉRIO DA SEDE

Água: Escassez e Conflitos no Império da Sede, de Maurício Waldman
Lançamento Editora Kotev (2019 KOTEV©)
ISBN 1230003255148, com 506.193 Caracteres e 65 Figuras
Acesso Livre na Internet em Formato PDF:


Programa Record News
Entrevista de Maurício Waldman com Heródoto Barbeiro, (12:45 minutos), 20-06-2019:


Entrevista Especial para o Instituto Humanitas Unisinos, 6-08-2019


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